Ainda é Março, o mês dos 300 mil portugueses na rua a desejar um país diferente, um governo diferente. Tal como previam os mais cépticos a manifestação “não deu em nada”, o povo permanece sereno face à indiferença demonstrada pelos responsáveis políticos à demonstração da sua insatisfação. Ainda è Março e estamos exactamente dez dias depois da marcha alargada por várias cidades do país na eminência da queda do Governo, e permitam-me discordar, não na eminência de uma crise política. Nessa já nos encontramos há alguns Marços, arrisco.
Este lugar do espaço e do tempo sócio-político em que estamos faz-me questionar. O que questiono não sei bem, ou por outra, são tantas as questões que me disperso apenas a tentar enumerá-las. Na tentativa de organizar o turbilhão de ideias que me surgem, destaco não por hierarquia, ordem alfabética ou algo que o valha umas das que se a mim me como um indissocciável e intrincado novelo.
A esta ideia classifico como limbo. É quase inquestionável que se sente uma agitação na sociedade portuguesa e nas suas instituições, que há uma agitação política que coloca o Governo na eminência da queda e o país à beira de um novo colapso. Ouve-se falar disso nas ruas, nos cafés, nos supermercados nos media, novos e velhos. A palavra que circula torna o “estado a que chegamos” num facto. Um facto quase inquestionável. A par desta agitação contagiante, da precipitação do discurso político, da exaltação e da mediatização cohabita a serenidade, a inacção, a apatia. O país está à beira do colapso, o Governo está à beira da queda, as pessoas estão à beira de ficar revoltadas, os que têm emprego à beira do desemprego e os que não se encontram ainda na pobreza à beira de nela cair… mas nada acontece. O Primeiro-ministro não se demite. Nenhum dos seus ministros ousa fazê-lo. A oposição não se une para precipitar a queda do Governo, e os que timidamente acabam enredados em cínicos golpes palacianos. As pessoas não tomam acção. Não prosseguem os protestos. As pessoas não tomam acção no dia-a-dia. A oposição não se une para governar. E assim se continua na eminência da catástrofe anunciada. E a talvez a catástrofe fique também por acontecer. E talvez Portugal fique sempre aqui com bom tempo, praia, caracóis e futebol, esta espécie de céu à beira do inferno.
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